Cultura

Bailux - Aldeia Velha


Fui guiada pelo Regis Bailux à Aldeia Velha, com a generosa carona do Cacique. Regis vem desenvolvendo uma importante documentação para (e com) a comunidade que pode ser acompanhada aqui.
A aldeia conta com uma escola que tem a missão importante de, além de seguir os parâmetros curriculares do MEC, incluir em suas disciplinas a cultura Pataxó. É sabido o preconceito que sofrem os índios de modo geral, e com os Pataxós não foi diferente. Reunir ao grupo na Aldeia gerou desconfiança entre os que não queriam ser vistos como Pataxós, e medo entre os mais velhos, que ainda tinham na memória o massacre ocorrido nos anos 50, chamado “Fogo de 1951”, onde índios foram mortos por policiais que invadiram a antiga aldeia de Barra Velha de noite (sob a pretensa acusação de que saquearam um comerciante local), palhoças foram queimadas e mulheres abusadas sexualmente. Finalmente, após um árduo trabalho por parte da comunidade, a aldeia conta com mais de 900 habitantes (em torno de 150 famílias).
Tanto a aldeia quanto a escola exercem uma função chave em continuar na transmissão da cultura do grupo e recuperar o respeito e a auto-estima dos mais jovens, como comenta o Prof. Angelo. O que não significa um retorno à “pureza do bom selvagem”, ignorando a vivência e a história contemporânea de um grupo que está em contato com o não-índio há séculos ou imaginando a cultura como uma sobreposição de camadas que não se tocam nem se contaminam*. A Aldeia conta com um Ponto de Cultura que permite, entre outras idéias, a conexão com software livre, reciclagem tecnológica e outros projetos propostos por Bailux, como parte do nodo Metareciclagem.

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Regis Bailux conectando-se no Ponto de Cultura de Aldeia Velha

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A escola de Aldeia Velha é a primeira de uma reserva indígena a receber “lousas digitais”. Chegamos no dia em que estavam dando treinamento do uso aos professores.

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Obrigada a todos da comunidade Aldeia Velha e ao Regis Bailux por esta oportunidade incrível. Espero que possamos seguir nos projetos colaborativos. #tamojunto

*Sobre os muitos conceitos de cultura que se podem apresentar, cito o do Prof. Amálio Pinheiro que define a idéia de Barroco e Mestiçagem: A cultura não pode ser vista como um projeto cumulativo na direção de um coroamento linear no futuro, mas como uma rede de conexões entre séries, cuja força de fricção e engaste ressalta a noção de processos dentro de sua estrutura. Daí a importância de se mostrar como certos processos civilizatórios têm o seu modo de conhecimento fundado numa especial relação material entre séries culturais concretas que constituem ao mesmo tempo relações entre sistemas e subsistemas de signos.
Tais processos se constituem especialmente a partir de três categorias antropossociais, fundantes e interdependentes: o migrante, o mestiço e o aberto.
A primeira determina a mobilidade e a montagem produtivas entre códigos e linguagens antes inimigas ou heterogêneas; A segunda trata de engastar mosaicos de alta complexidade, oriundos das mais diversas e divergentes culturas, indo além das identidades; A terceira exacerba as relações entre natureza e cultura, entre o dentro e o fora, entre a casa e a rua.
Do micro ao macro, várias combinatórias podem ser montadas, a partir de séries culturais em processo: por exemplo, oralidade, culinária, louçaria, mobiliário, arquitetura, espaço urbano.
Retículas luminosas permeiam sistemas culturais intermediários como mercados, ruas e igrejas, com conexões, engastes e labirintos que se renovam nas pedrarias e arabescos de prateiros e ourives ou então nas constelações de sílabas, em corpúsculos pictóricos, nas diagramações de jornal ou nas telas de vídeo ou cinema.”

Bailux - Aldeia Velha (reserva)

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Algumas das lideranças Pataxó presentes na reunião (esq-dir: Áureo-Paturi, Cacique Antonio, Arnã)

No segundo dia visitamos a reserva Pataxó, lugar de visitação turística, onde havia de uma reunião com as lideranças Pataxó sobre futuros caminhos da relação com o turismo local. O lugar é belíssimo e a fauna abundante. A presença dos Pataxó no local restringe a atuação de caçadores, ainda que nem sempre o espaço da reserva seja respeitado pelos não-índios.

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Cacique Antonio

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Palhoça queimada por razões ainda incertas

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Preparo do almoço aos visitantes

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Vista da cozinha na reserva

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Bailux - Aldeia Velha (quintal da Pajé Jaçanã)

Pajé Jaçanã é uma figura inspiradora. No seu jardim (ou farmácia-viva não há pressa. O espaço já conta com o trabalho de permacultores e se espera que brevemente um laboratório de preparo de medicamentos possa ser construído. Ela comenta calmamente, no entanto, que não há interesse por parte dos mais jovens em aprender a cultura das ervas medicinais. O desafio é unir o Ponto de Cultura que já está ativo na Aldeia Velha, e os projetos de Bailux que vem atraindo aos mais jovens, com os conhecimentos ancestrais da cultura Pataxó, onde a figura da Pajé constitui um eixo fundamental. Como em outros contextos, perceber a tecnologia como parte da história e da cultura ainda é um trabalho a ser construído.


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Pajé Jaçanã


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Entre ervas, flores e árvores frutíferas, tudo tem uma função no jardim de Jaçanã.

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A proposta dos colaboradores é que a divulgaçãodos saberes possa vir acompanhada de registros digitais de modo a preservar os conhecimentos e ao mesmo tempo atrair os mais jovens. No entanto a participação da comunidade local é imprescindível, pois não se trata apenas do cultivo de plantas medicinais estritamente em seu sentido científico, mas de toda uma cultura de relação com a natureza e as tradições da comunidade Pataxó que envolve, entre outros elementos, o cultivo de plantas.
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